O canto das sereias e o crédito consignado

As famílias brasileiras estão superendividadas. Devendo cheque especial, cartão de crédito e crédito consignado e os bancos nunca lucraram tanto

Por Antônio Cláudio
27/06/2017, às 01:08 - Atualizado em 27/06/2017, às 13:20

Segundo a mitologia grega, as sereias são seres metade mulher e metade peixe, capazes de atrair e encantar qualquer um que ouvisse o seu canto. Viviam em uma ilha do mediterrâneo em algum lugar do Mar Tirreno, cercada de rochas e recifes ou nos rochedos entre a ilha de Capri e a costa da Itália.

A sedução provocada pelas sereias era através do seu canto. Os marinheiros que eram atraídos pelo seu canto e se aproximavam o bastante para ouvir seu belíssimo som, descuidavam-se e naufragavam.

Elas participam da lenda de Odisseu e dos Argonautas, em ambos os casos eles resistiram ao seu canto. Os argonautas, por causa da música de Orfeu, e Odisseu por causa do conselho recebido de ser amarrado ao mastro e ordenar à tripulação tapar os ouvidos com cera para não escutarem o canto das sereias.

Quando se reside em pequenas cidades do interior ou em bairros ainda com muita afinidade entre os moradores, sempre existe uma mercearia na qual, algumas famílias de menor renda, compram seus produtos do dia a dia e anotam em uma caderneta. No final do mês a família, ao receber os salários, paga uma parte dos gêneros anotados na caderneta e deixam uma parte para o mês seguinte. Como no mês seguinte ela vai continuar comprando, irá dever a mercearia da esquina pelo resto da vida. O que existe é um pacto informal entre o dono da mercearia, que tem o seu capital de giro anotado nas cadernetas e assim, irá ter clientes por muitos anos e, as famílias, mesmo com poucos recursos financeiros, tem como adquirir os gêneros de primeira necessidade.

Até o ano de 2003 os únicos mecanismos que as instituições financeiras tinham para manter os clientes em permanente necessidade de crédito com os Bancos, eram o cheque especial e o cartão de crédito. Mas quando um cliente se endividava, demasiadamente, com uma instituição financeira, ele tentava negociar a dívida e, caso não conseguisse, ia para outra. Ele não tinha amarras e nem obrigações suficientemente fortes, para mantê-lo na instituição financeira de origem. Ele sempre tinha outras opções.. O PRÓPRIO CIDADÃO TRABALHADOR BRASILEIRO ADMINISTRAVA A SUA VIDA FINANCEIRA.

Cuidado com o crédito consignado

Quando chegou o ano de 2003, o primeiro Governo Lula, foi editada a Medida Provisória 130/2003, depois convertida na Lei 10.830/2003, em que autorizava o crédito consignado, iniciando-se a autorização pelos aposentados e pensionistas do INSS e, depois, se estendendo para todos os trabalhadores públicos e privados.

A partir de então as instituições financeiras passaram a ter acesso direto às aposentadorias, às pensões e aos salários dos trabalhadores brasileiros de forma irrevogável e irretratável. As instituições financeiras, que já tinham o cidadão nas mãos, com o cheque especial e o cartão de crédito, a partir de então tiveram o poderoso crédito consignado, tendo acesso direto ao salário do trabalhador. Agora, CIDADÃO TRABALHADOR BRASILEIRO TEM A SUA VIDA FINANCEIRA ADMINISTRADA POR UM BANCO. PRIMEIRO O BANCO TIRA O DELE E O QUE SOBRA VAI PARA A CONTA DO TRABALHADOR. Porém quando o dinheiro cai na conta-corrente é consumido pelo cheque especial e para o pagamento dos demais descontos, tais como, seguros, títulos de capitalização, taxas, tarifas, tudo desnecessariamente contratado, ou seja, não sobra mais nada. O TRABALHADOR BRASILEIRO ESTÁ SE MATANDO PARA DAR LUCRO PARA OS BANCOS.

Mas como o trabalhador entrou nesta furada? É através do canto da sereia dos bancos, oferecendo juros mais baixos e prazos mais longos. Porém a grande armadilha é comparar os juros do crédito consignado com os juros do cheque especial e do cartão de crédito que são absurdos. A prática demonstrou que todos os cidadãos que tem crédito consignado, renovam seus contratos a cada oito meses. Para os bancos é como se fosse aquela caderneta da mercearia da esquina, em que a dívida será sempre renovada e nunca será paga.

Conclusão: As famílias brasileiras estão superendividadas. Todas devendo cheque especial, cartão de crédito e crédito consignado. E os Bancos nunca lucraram tanto como agora. É hora de dar um basta nisso. Liberte-se. Passe a administrar o seu próprio dinheiro. O dinheiro do seu suor é seu, não é de banco ou qualquer outra instituição.

Tem ainda outro fator importante. O reflexo para o comércio local das pequenas cidades, em virtude da concentração da renda das famílias nos bancos. Imagine uma cidade de 10 mil habitantes no nordeste. São aproximadamente 2.500 famílias. Se cada família tiver um crédito consignado de R$ 300,00 por mês, significa que a cidade deixará de receber R$ 750.000,00 por mês ou R$ 9.000.000,00 por ano. Será que estes valores fazem falta ao empresariado local? Mas isso é assunto para outra oportunidade.


Antônio Cláudio é Advogado, Professor Universitário e Mestrando em Finanças e Mercado Financeiro

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