PC do B: 97 anos em defesa da democracia!

Em um ambiente de absoluta clandestinidade, que foi fundado o Partido Comunista do Brasil (PCB), o primeiro partido de trabalhadores da história do país

Por Dalton Macambira
31/03/2019, às 14:00 - Atualizado em 01/04/2019, às 13:00

No início do século XX o mundo passava por grandes transformações. O sistema capitalista, sobretudo as grandes potências, em busca de mercados para expandir a venda de suas mercadorias, fruto da Revolução Industrial, e na busca por lucros cada vez maiores, no plano interno elevava ao máximo a exploração dos trabalhadores e, no plano externo, acelerava o acirramento das tensões diplomáticas que, uma vez fracassadas, conduziram à eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), catástrofe nunca antes vista na história da humanidade.

Nesse contexto, de fragilidade dos principais países envolvidos no conflito e da luta dos trabalhadores por melhores condições de vida e trabalho, eclodiram movimentos revolucionários por toda parte, cujo destaque é o advento da Revolução Russa de 1917, cuja vitória influenciará de forma decisiva no surgimento de Partidos Comunistas em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Nessa época em que o desenvolvimento industrial ainda era bastante insipiente, em função da tardia medida que levou ao fim da escravidão (1888) e a conservadora transição da Monarquia para a República (1889), que havia reforçado oligarquias regionais e um poder central dominado pelas elites paulista (café) e mineira (gado), o jovem movimento operário sofria forte influência do anarquismo, incapaz de conduzir a luta dos trabalhadores para um patamar superior, mesmo após as importantes greves de 1917, não aceitava a criação de um partido político e reduzia a luta ao plano econômico, isto é, a pauta era basicamente pelo aumento salarial e por melhores condições de trabalho.

Foi nessa conjuntura, e em um ambiente de absoluta clandestinidade, que no dia 25 de março de 1922, há quase 100 anos, portanto, que foi fundado o Partido Comunista do Brasil (PCB), o primeiro partido de trabalhadores da história do país. Eventos de organizações políticas diversas, reunindo 73 lideranças operárias dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, elegeram 09 delegados para o Congresso de fundação do PCB, em Niterói: Astrojildo Pereira (jornalista), Cristiano Cordeiro (advogado), Joaquim Barbosa (alfaiate), Manuel Cendón (alfaiate), João da Costa Pimenta (gráfico), Luís Pérez (vassoureiro), Hemogêneo Fernandes da Silva (eletricista), Abílio Nequete (barbeiro) e José Elias da Silva (pedreiro).

Foto dos delegados presentes no Congresso de Fundação do PCB em 25 de março de 1922

O PCB nasce como uma organização muito pequena e com ideias bastante radicais, partindo do princípio que capital e trabalho são inconciliáveis, defendia a revolução como única via de transformação da sociedade, inspirado no que ocorreu na Rússia em 1917 e na enorme agitação política e cultural da década de 1920 no país, como a Semana de Arte Moderna, a Revolta do 18 do Forte de Copacabana, o Tenentismo e a Coluna Prestes. Esse radicalismo levou o Partido a se ausentar da chamada “Revolução de 30”, processo que conduziu ao fim da República Velha, por entender, de forma equivocada, que aquela luta era entre a aristocracia rural oligárquica e a burguesia industrial urbana.

Na verdade, o movimento armado de 1930 abriu caminho para o desenvolvimento do Brasil, sua industrialização e urbanização, permitindo o crescimento e o fortalecimento da classe operária, cujas lutas levaram a importantes conquistas trabalhistas e previdenciárias, como a lei do salário mínimo, direito a férias e a aposentadoria, regulamentação da jornada de trabalho e ao repouso semanal remunerado, entre outros, além da universalização do direito de voto, inclusive o da mulher.

Na década de 1930 o Partido Comunista do Brasil (PCB) participou da construção da Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma frente ampla que reunia a esquerda, democratas e progressistas, militares, operários e intelectuais, movimento caracterizado pela luta anti-imperialista, antifascista, em defesa da democracia, da soberania nacional e pela paz, em função das ameaças de mais uma guerra mundial. Os comunistas estiveram na linha de frente contra o golpe que instaurou a ditadura do Estado Novo (1937-1945), que atingiu os principais quadros do Partido, muitos dos quais foram mortos, torturados e presos, como o seu principal líder, Luís Carlos Prestes.

Com o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), mais catastrófica do que a primeira, a derrota do nazi-fascismo e a redemocratização do país, o PCB foi legalizado, chegando a lançar candidato a presidente da República, Iêdo Fiuza, que obteve 10% dos votos do país. Os comunistas também elegeram uma bancada para a Assembleia Nacional Constituinte (1946), elegendo 14 deputados e um senador, Luís Carlos Prestes (Rio de Janeiro – DF). A bancada de deputados comunistas era formada por operários, lideranças populares e sindicais, médicos e escritores, quais sejam: Carlos Marighela (Bahia); Agostinho de Oliveira, Alcedo Coutinho e Gregório Bezerra (Pernambuco); Batista Neto, João Amazonas e Maurício Grabois (RJ – DF); Alcides Sabença e Claudino Silva (Rio de Janeiro); Caires de Brito, Jorge Amado, José Maria Crispim e Osvaldo Pacheco (São Paulo); e Abílio Fernandes (Rio Grande do Sul).