Esses nordestinos atrasados. Atrasados? Será mesmo?

Dilma, com seus sulistas, só não caiu em 2013 por pouco. Os nordestinos a largaram, deram suporte a Eduardo Cunha e veio o impeachment

05 de outubro de 2020, às 15:00 | Genésio Júnior

Esses últimos dias de setembro e início de outubro estão interessantíssimos. Corre-se o risco de vermos esses dias como decisivos ao porvir.

A disputa pública entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e ministro do Desenvolvimento, Rogério Marinho, está sendo a confirmação de um estado de coisas. Os políticos e o poder nordestino que começaram esse governo Bolsonaro por baixo estão vencendo. Aqueles não-nordestinos, preconceituosos, que vem a volta do atraso na política brasileira, mais uma vez, cometem um erro em não entender o Brasil.

Vamos lá. Ao final de 2011, a presidente Dilma Rousseff, na busca de ficar bem com classe média que já perdia a paciência com o PT, decidiu jogar ao mar um grupo grande políticos nordestinos, e alguns paulistas, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha deixado como um “cordão sanitário” para protege-la de sua conhecida incapacidade política e encheu o governo de políticos sulistas, turma de estados como o Paraná e Rio Grande do Sul. Não vou nominá-los, mas são nomes públicos. Basta ver a nossa história para ver que desde os anos 60 os políticos daquela região não se mostraram hábeis em grandes “concertos” políticos. Não vamos nos estender. Mas na ditadura teve muito sulista general, João Goulart foi “golpeado” e Getúlio Vargas, que foi um craque, se matou.

Dilma, com seus sulistas, só não caiu em 2013 por pouco e o resto você sabe. Os nordestinos a largaram, deram suporte a Eduardo Cunha e veio o impeachment. Aqueles nordestinos foram cruciais aos que imaginavam que o Brasil se equivocava com a matriz econômica de Dilma, que nos levou àquela recessão. Naquele momentos eram modernos, contemporâneos.

Dizer agora que Bolsonaro se rende ao atraso ao se juntar aos nordestinos, com seus nomes fortes do Centrão, que o encantam com a fórmula de fazer a extensão do auxílio emergencial, com o possível renda cidadã, não podem se esquecer que Paulo Guedes subverteu o seu liberalismo ao colocar o Estado com a culpa de tudo de errado no Brasil. Ele transformou o Estado brasileiro como inimigo do Brasil, como se tudo não formasse o país. Somos tudo e algo mais, misturado. Não dá para tocar esse país imaginando que se elimina nossos males por força da vontade, meramente!

Guedes não representava a modernidade como ele vendeu. Bolsonaro mostrou, por mais que não tenha projeto para o Brasil, a não ser projeto de poder, que não é uma Dilma Rousseff, fiquem certos! Ele monta com os políticos pragmáticos uma fórmula de sobrevivência que chega a todos os poderes, como se vê com a indicação do desembargador Kássio Nunes Marques para o Supremo Tribunal Federal. Guedes se serviu dos lunáticos ideológicos para sua sobrevivência. Bolsonaro vem dizendo que Guedes é forte, que vai com ele. Está cada vez mais difícil imaginar como isso vai ficar.

É certo que nos próximos 40 dias, tempo que resta até as eleições municipais, toda essa questão ganha um tempo. Pois será o tempo da suspensão, em tese, tanto para montar o renda cidadã como a reforma tributária. Uma engenharia precisa ser montada. É bom alertar que mesmo que seja aceita a criação de um tributo para bancar o renda cidadã, pelo teto de gastos, não tem como aumentar gastos. Complicado.

O pragmatismo dos políticos nordestinos pode se juntar aos outros pragmáticos para salvar Bolsonaro em uma nova agenda desafiadora, que nosso presidente poderá ter pela frente. A iminente derrota de Donald Trump nas eleições americanas  será mais um duro golpe na agenda ideológica, que Bolsonaro já vem sacrificando. Essa turma que nasceu fazendo política acima do paralelo 20º é famosa por não colocar a mão em ponta de faca! Atrasados!? É melhor reavaliar!

Bolsonaro não comete os erros de Dilma / Foto: Veja


Coluna Passando a Régua

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