Eleições, Beth Cuscuz e o falso puritanismo social do Piauí

Elizabeth de Oliveira Nunes responde judicialmente por crimes e utiliza seu direito a ampla defesa e ao contraditório, mas o crime de tentar ser candidata a vereadora parece ser maior

Por Tarcio Cruz
28/11/2019, às 11:00 - Atualizado em 28/11/2019, às 04:09

Após o anúncio do MDB de que a ex-professora e empresária Beth Cuscuz seria candidata a vereadora choveram piadas e críticas nas redes sociais. Muitos trataram a mulher, que goza de seus plenos direitos políticos, como um pária, excluída de uma casta social, pura, cândida e límpida que é o meio político.

É preciso que fique bem claro que Elizabeth de Oliveira Nunes, hoje proprietária de uma lanchonete no centro de Teresina, foi detida em 2012 na Operação Aspásia. À época proprietária da casa noturna que levava seu nome, Beth foi acusada de favorecimento à prostituição, tráfico interno de pessoas e formação de quadrilha. A mulher responde na justiça pelas acusações e segue a sua vida longe do “rufianismo” que, de acordo com o inquérito, ela praticava. Mas, de acordo a Lei Complementar nº. 135 de 2010, conhecida como “Lei da Ficha Limpa”, Beth Cuscuz é uma “ficha limpa”.  

Longe de analisar o mérito jurídico e o sistema político-partidário que Beth irá se inserir, faz-se necessário avaliar também os motivos que levaram às críticas feitas a Beth Cuscuz, que ontem (26/11) lançou a sua pré-candidatura com o apoio de Themístocles Filho e Dr. Pessoa. Vários políticos condenados por corrupção, com trânsito em julgado, voltaram e se reelegeram com o apoio maciço do eleitorado. Fernando Collor de Melo, Paulo Maluf. De acordo com levantamento do UOL, de 2000 até hoje sete prefeitos foram eleitos no Brasil atrás das grades, presos, de argola e tudo mais. Já outro levantamento feito pelo G1 em fevereiro de 2019, 50 deputados federais, 10% da Câmara, são réus em processos criminais.

Porém, o crime de Beth Cuscuz é maior, mais profundo e afronta uma sociedade machista como a brasileira. A prostituição, ou o favorecimento dela, chacoalha a psique de um indivíduo que aprendeu desde criança sobre o papel subserviente de uma prostituta. Em um Estado democrático de direito não basta ter plenas prerrogativas políticas para ser candidata, é preciso ter a aceitação de um sistema criado para ver a mulher como um objeto de prazer. Elizabeth de Oliveira Nunes responde judicialmente por crimes e utiliza seu direito a ampla defesa e ao contraditório, mas o crime de tentar ser candidata a vereadora parece ser maior.

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