Defesa dos animais, fakes e disputa política em Teresina

O caso mais recente é de uma estudante que teve a casa como alvo de mandado de busca e apreensão executado pela Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente

26 de janeiro de 2020, às 11:00 | Wesslley Sales

Está se tornando uma verdadeira autofagia o mundo paralelo dos chamados “protetores”. Agora, ganha repercussão uma história que pode esconder uma situação grave e expõe a desunião na causa animal em meio a busca pelo poder e ascensão política. Assim, o ativismo em defesa dos pets tem sofrido em Teresina com denúncias, discussões e situações que beiram a irracionalidade.

O caso mais recente é de uma estudante que, no final da tarde da última terça-feira (21/01), teve a casa no Bairro Três Andares como alvo de mandado de busca e apreensão executado pela Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, com apoio do Centro de Zoonozes. Uma jovem era acusada de manter um abrigo irregular, maus tratos a animais e até mesmo estelionato. Do local foram recolhidos em torno de 20 cães e alguns gatos.

Tudo começou quando quando a Presidente da Comissão de Proteção e Defesa dos Animais da OAB-PI, acompanhada de protetoras foram ao abrigo conhecer a realidade. Depois, houve fiscalização do Conselho de Medicina Veterinária e da Gerencia de Zoonozes.

Após a segunda ida ao local a Presidente, acompanhada de quatro colaboradoras, entre elas duas veterinárias, esteve na Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente. Segundo a advogada Juliana Paz, se houve alguma suspeita de estelionato contra a estudante por arrecadar dinheiro com campanhas e não usar os recursos para o tratamento dos animais que abrigava, não partiu da Comissão, mas da própria autoridade policial.

No mundo “protetor” houve revolta. Havia um sentimento de onde teria partido a denúncia. Para uns vingança. Para outros a busca pela evidência com vistas à eleição deste ano. O objetivo seria fortalecer vereadores com mandato ou ganhar visibilidade e, com isso, apoio para chegar à Câmara Municipal “defendendo” a bandeira dos pets.

A Presidente da Comissão de Proteção e Defesa dos Animais, advogada Juliana Paz, nega que o órgão tenha registrado Boletim de Ocorrência e que a DPMA agiu de ofício. Reconhece que a casa era inadequada para manter os animais por falta de estrutura, mas que foi pedido prazo para trabalho de conscientização. O objetivo era evitar o que aconteceu. As duas colaboradoras que iniciaram as visitas foram expulsas da instituição que pertence à OAB-PI.

Em 2019 um censo revelou que Teresina possui cerca de 150 mil cães e gatos abandonados pelas ruas. Muitos deles com doenças variadas. A Zoonozes recolhe, mas o destino é quase sempre o mesmo, eutanásia nos casos mais graves. Para parte dos protetores isso é um absurdo. Mas, o que fazer então? O fato é que parece haver exageros e erros de todas as partes como passamos agora a discorrer após ouvir diversos relatos.

Por um lado, a jovem denunciada teria aceito um animal machucado que uma das colaboradoras da Comissão não queria ou podia ficar. Ele foi tratado pela estudante e passado um tempo retornaram em sua casa para buscar o pet. A ideia era fazer uma campanha para adoação, mas ela não entregou e preferiu cuidar do gato. Em seguida vieram as denúncias e o que se sabe é que uma das protetoras se excluiu da entidade e a outra foi expulsa por má conduta. A partir dai surgiu uma verdadeira onda de notícias falsas (fakes) contra a Comissão e a protetora.

Mas, o que a jovem estudante fazia na verdade era recolher esses animais que ninguém mais queria e até protetores se recusavam a resgatar. A situação de alguns era tão grave que o focinho já não existia mais, sem patas e com a coluna quebrada, cegos, com câncer, alto grau de desnutrição e leishimaniose entre outros problemas. Ninguém os queria. As campanhas eram para custear a reforma do local, fazer tratamento e dar sobrevida aos pets. A ajuda era pouca, mas ela não deixou de acolher. Seu erro foi a compaixão desmedida, algo que colocou sua saúde e a de outros em risco.

Evidente que o abrigo era irregular, como a grande maioria em Teresina, uma vez que apenas a APIPA está legalizada. O local é insalubre, havia grande quantidade de animais e não tinha acomodação ideal. Estavam magros. Uns por causa da doença outros porque a ração doada a estudante era insuficiente. Privava-se de vida social, ficou endividada em clínicas veterinárias e pouco apoio encontrou em meio aos “protetores”. Mesmo assim, ela não desistiu de nenhum deles e buscava compensar com amor e dedicação qualquer falta.

No dia da remoção, a jovem conduziu cães e gatos, um a um para os carros da Zoonozes. Chorou. Passou mal por saber que grande parte dos animais que salvou das ruas e cuidou agora podem ser sacrificados. Apesar disso, ela segue em frente de cabeça erguida e pronta para responder as acusações com o fim das investigações. A de estelionato já foi retirada. Restará buscar na justiça reparação pelos ataques, calúnias e denúncias vindas de onde menos esperava, do mundo “protetor” ao qual pertence.

Como dizia o Padre Antonio Vieira: "Não há coisa boa sem contradição, nem grande sem inveja".

Em 2019 um censo revelou que Teresina possui cerca de 150 mil cães e gatos abandonados pelas ruas


Coluna Passando a Régua

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