Religião e ciência tentam explicar surto coletivo em Porto-PI

A psicologia e a religião apontam caminhos diferentes para o que pode estar acontecendo na escola. Porém, eles convergem sobre a necessidade urgente de se buscar solução

Por Wesslley Sales
25/06/2019, às 09:00

Desmaios acontecem quase que diariamente a mais de um ano na escola Otávio Falcão, na cidade de Porto do Piauí. Mas, o que teria levado cerca de 20 alunos a uma espécie de surto coletivo no último dia 10 de junho? Na cidade não se fala em outra coisa. 

Para alguns, o problema é psicológico. Para outros, há fenômenos inexplicáveis, sobrenaturais. Encontramos alunos com relato diferente do estudante da reportagem anterior que declarou sofrer de ansiedade, além de ouvir vozes e sombras após um período se automutilando.

Na terça-feira (11/06), dia seguinte ao surto coletivo outros quatro alunos também perderam os sentidos. Na quarta-feira (12/06) foram outros sete casos, entre eles a estudante Nayra Clésia, 15 anos. Ela foge do estereotipo de problemas familiares e psicológicos declarados por outro colega. 

A mãe da aluna confirma que ela se alimenta bem, é boa aluna e tem vida social ativa em grupos religiosos e festas com os amigos. Para a adolescente a experiência que viveu não tem explicação.

“Nunca tinha sentido isso antes. Uma amiga começou a passar mal e, logo em seguida, senti falta de ar e o coração acelerado. Depois disso não vi mais nada. Tenho certeza que não foi porque outras pessoas estão tendo esses desmaios. Quando entro na escola, sinto uns arrepios e uma sensação estranha. Não tenho como explicar o que aconteceu comigo, mas tenho medo que se repita”, afirmou.

Na escola Otávio Falcão foi proibida a entrada de alunos com celulares. Também houve orientação para que não fosse falado sobre o caso com a imprensa. Apesar disso, conseguimos informações que, se não estão diretamente relacionadas com os desmaios são no mínimo curiosas: algumas salas de aula receberam o nome de professores já falecidos e duas alunas morreram de forma trágica, uma delas a pouco mais de um ano.

A psicologia e a religião apontam caminhos diferentes para o que pode estar acontecendo na escola. Porém, eles convergem sobre a necessidade urgente de se buscar solução em várias frentes e sem descartar nenhuma hipótese. Para o psicólogo Átila Melo surtos coletivos com o do colégio Otávio Falcão são raros e precisam ser analisados com cuidado.

“Em se tratando de adolescentes que já tem um histórico de vulnerabilidade familiar, depressão e mutilação, por exemplo, tudo isso pode ser um conjunto que possa ser estímulo para estar desenvolvendo todas essas reações secundárias. É algo preocupante que precisa ser investigado porque pode trazer um risco de vida e a partir desta investigação responder a todas essas hipóteses. O ser humano é biopsicossocial e religioso, então, essas influências, essas manifestações, talvez seja uma sensibilidade maior desses adolescentes e pode sim ter influência religiosa”, explica Átila Melo, especialista em saúde mental e dependência química.

Para o Padre Nilton Pereira, conhecido por reunir milhares de fiéis na Missa da Misericórdia e por ter experiências em casos envolvendo possessões, existem a princípio três hipóteses. Em todas elas, o religioso afirma que é preciso que a ciência busque o diagnóstico, mas que é importante também um acompanhamento espiritual aos estudantes e suas famílias.

“Muitas vezes pode ser uma contaminação, não uma possessão. Quando eu frequento alguns lugares que mexem com ocultismo, quando se mexe com os mortos isso é muito complicado. Acaba tendo uma contaminação de energias que não são boas, capazes de tirar totalmente o equilíbrio humano. Então, pode ser um transe coletivo, pode ser uma contaminação do espaço (escola) ou de pessoas que trazem essa energia que está irradiando sobre esta escola. Diagnosticar um caso como esse precisamos de duas coisas: uma frente interdisciplinar com profissionais da área de psicologia e psiquiatria, além da parte espiritual. Porque só se mexe na questão espiritual de uma pessoa quando se descarta qualquer influência humana”, analisa.

A investigação prossegue na escola Otávio Falcão. Desde a semana em que aconteceram os desmaios a Secretaria Estadual de Educação enviou psicólogos para Porto. Além de um diagnóstico, outras equipes estão ajudando a montar um cronograma de atividades para professores, alunos e suas famílias. 

De acordo com a Diretora da Unidade de Gestão e Inspeção Escolar da SEDUC, Ana Rejane, a rede de proteção municipal, através do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) também foi acionada.

“Tem equipe de psicólogos do município dando suporte. Tem a equipe da SEDUC, formada por psicólogos, assistentes sociais e psicopedagogos para começar a fazer o que cabe a escola. Vamos atuar no campo pedagógico e no sentido de acionar a rede e monitorar para que os alunos tenham o acompanhamento destas outras instituições”, confirmou Ana Rejane.

O trabalho de investigação e acompanhamento na escola Otávio Falcão segue sob os olhares de toda uma cidade. A apreensão é tão grande quanto o medo de quem conhece a história. Enquanto isso, alunos e professores só pensam em voltar à vida normal, até porque já existem relatados de casos semelhantes em outras unidades escolares da rede municipal.

Nayra Clésia ao lado da mãe

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