LACEN faz estudo sobre COVID-19 e síndrome de Guillain-Barré

O Ministério da Saúde estuda a ampliação dos procedimentos de vigilância executados pelo Piauí para outros Estados da federação

22 de outubro de 2020, às 09:00 | Cobertura Coronavírus

O Laboratório Central de Saúde Pública Dr. Costa Alvarenga (LACEN-PI) detectou material genético do novo coronavírus  no líquido cefalorraquiano de um paciente vitimado recentemente por síndrome de Guillain-Barré. O exame foi realizado no setor de biologia molecular do LACEN-PI, por meio da técnica RT-PCR.

Segundo o médico neurologista e responsável pela pesquisa, Marcelo Adriano, essa identificação é um achado inédito para a ciência. 

“É o primeiro caso documentado no mundo em que o vírus é detectado no sistema nervoso de um paciente com a doença”, explica o médico.

Diante dos indícios iniciais de que a COVID-19 poderia atacar o sistema nervoso dos indivíduos, o programa local de vigilância epidemiológica dos agravos com manifestações neurológicas passou a incluir a pesquisa do SARS-CoV-2 no líquido cefalorraquidiano dos pacientes desde maio de 2020, no LACEN-PI.

O LACEN está trabalhando 24 horas por dia para acelerar nos exames de identificação do novo coronavírus. 

“Nós estamos trabalhando sem parar desde o início da pandemia, buscando levar aos pacientes um diagnóstico preciso e de qualidade. Também realizamos pesquisas como esta que vão ajudar a entender como o vírus se comporta no sistema nervoso central”, destaca a diretora do LACEN-PI, Walterlene de Carvalho.

O exame de RT-PCR para o novo coronavírus foi adicionado ao painel de investigação laboratorial de herpes vírus, enterovírus e arbovírus dentre eles: zika, dengue, chikungunya e vírus do Nilo Ocidental. Essa estratégia foi responsável pela detecção do primeiro caso de encefalite pelo vírus da febre do Nilo Ocidental do país, em 2014.

“Em 2019, o Piauí foi alvo de uma visita de uma equipe de neuroepidemiologistas do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, por conta dos resultados positivos do programa”, lembra o neurologista Marcelo Adriano.

Atualmente, o Ministério da Saúde estuda a ampliação dos procedimentos de vigilância executados pelo Piauí para outros Estados da federação. A pesquisa realizada pelo laboratório do Piauí será encaminhada para o Instituto Evandro Chagas, no Pará, centro de referência para o estudo da doença.

“Após detectarmos líquor positivo, repetimos a análise por três vezes. Essa amostra será enviada para Instituto Evandro Chagas, em Belém do Pará. Foi feito também quimioluminescência do soro do paciente com detecção do IgM e IgG, que testaram positivo para o vírus”, pontua a diretora do LACEN.

SÍNDROME

O líquido cefalorraquidiano é um fluido que envolve e protege o cérebro, a medula espinhal e as raízes de todos os nervos do corpo humano. Esse líquido é coletado por punção na região da coluna lombar, nos casos suspeitos da doença. A síndrome de Guillain-Barré é caracterizada pela perda aguda da força muscular e da sensibilidade nas pernas, nos braços, na face e até mesmo nos músculos da respiração. 

“Geralmente, a doença é deflagrada por infecções virais ou bacterianas – especialmente a bactéria intestinal Campylobacter jejuni e o vírus Zika. Nesse estudo, queremos saber se a síndrome é mais um agravamento correlacionado com a COVID-19", explica o neurologista Marcelo Adriano.

Diante de uma infecção, por vezes o sistema imunológico do paciente confunde-se e passa a atacar os próprios nervos do indivíduo, reconhecendo erroneamente os seus envoltórios como se fossem vírus ou bactéria a serem eliminados.  Nessas situações, indica-se o uso da medicação “imunoglobulina humana hiperimune” (disponível pelo SUS), na tentativa de interromper o processo de lesão dos nervos pelo próprio sistema imunológico.

O diretor do Hospital Natan Portella e infectologista, José Noronha esclarece que esse caso avaliado é de um paciente que apresenta uma síndrome que é uma resposta desregulada do sistema imunológico. De acordo com o médico, a síndrome causa uma desregulação e inflamação nos nervos periféricos.

“Apesar de já termos alguns casos descritos na literatura, secundários à infecção por COVID-19, é a primeira vez que conseguimos isolar uma amostra. Além disso, nós temos implicações a serem estudadas adiante, como o próprio sistema nervoso central funcionar como um abrigo para o Sars-Cov-2, principalmente se o paciente desenvolver manifestações neurológicas”, explica o infectologista.

Equipe do LACEN


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