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"Muitas mulheres ainda têm medo de denunciar", diz Anamelka Cadena

"O agressor é pai do filho, ela nutre sentimento por ele, tem a relação familiar e tem a situação da dependência financeira em alguns casos", destacou a delegada

Delegada de Polícia Civil do Piauí, Anamelka Cadena é pós-graduada em Direito Penal e Processo Penal e Comendadora da Ordem do Mérito Renascença do Piauí. Além disso, também é listada no rol dos melhores Delegados de Polícia Civil do Brasil, na categoria investigação.

Anamelka Cadena atua, principalmente, na defesa das mulheres. Hoje ela ocupa o cargo de Diretora da Gestão Interna da Secretaria de Segurança Pública do Piauí.

A delegada, em entrevista ao Portal Douglas Cordeiro, falou sobre a necessidade de intensificar cada vez mais ações educativas em comunidades, inclusive no interior, onde tem carência dessas ações. Ela falou também sobre a possibilidade de inquéritos policiais contra agressores de mulheres serem revisados.

O enfrentamento com repressão não é suficiente, e assim vamos continuar vendo as estatísticas aumentando da mesma forma

PORTAL DOUGLAS CORDEIRO - O que tivemos de casos de mulheres assassinadas pelos maridos, namorados, companheiros, parentes foi uma coisa impressionante de quarta ate hoje. Mais recentemente tivemos o caso da mulher agredir o ex-companheiro. O que está acontecendo no Piauí?

DELEGADA ANAMELKA CADENA - Na diretoria de gestão interna da secretaria de segurança a gente intensifica ainda mais esse olhar e essa visão da necessidade de intensificar cada vez mais políticas públicas de enfrentamento a violência. Temos que intensificar não só de forma repressiva, hoje a gente tem unidades especializadas, protocolos sigilosos de informação como o 180, central de flagrantes de gênero atendendo de forma emergencial, a gente tem ações que são estendidas pro interior do estado. A gente tem o Salve Maria que pode ser usado em qualquer parte do estado. O 180 é nacional.

PORTAL DOUGLAS CORDEIRO - A Secretaria de Segurança vem recebendo denúncias do interior do Piauí pelo aplicativo Salve Maria?

DELEGADA ANAMELKA CADENA - Sim! A gente já teve mais de 70 município utilizando o aplicativo. São poucos ainda, por isso trabalhamos na difusão. Quando a gente observa os feminicídios, esses crimes mais graves, a gente percebe um cenário de violência recorrente, na maioria esses casos tem relação doméstica e familiar, e quase sempre não existe denúncia, nem boletim, nem Salve Maria, nem 180, ou seja, são situações que não conseguimos ainda nos inserir. A gente procura trabalhar nessas ações preventivas sob duas perspectivas, uma no viés educacional e didático, de mudança de pensamento. Vamos a comunidade e nas escola também, levando essa temática nos bairros. Nossa intenção é ir ao interior do Estado. Temos que trabalhar nessa mudança de pensamento e sensibilizar a população de que não podemos esperar o protagonismo da mulher em situação de violência. Sempre é o mesmo discurso, que ela sofreu violência, foi abusada. Precisamos que a mulher seja a protagonista da denúncia.

PORTAL DOUGLAS CORDEIRO - Delegada, a gente observa a idade média das vítimas, são mulheres novas de 20 anos, 25 anos... isso seria culpa de um relacionamento muito precoce, ou é posse ou é tudo conjugado?

DELEGADA ANAMELKA CADENA - Essa avaliação é feita fazendo essa inversão. Ano passado uma estatística apontou a média de idade de 33 anos. Esse viés dessas práticas são observados. Por isso trabalhamos em campanhas educativas. Se não for através de educação, isso não muda. Temos que mudar a perspectiva. Não acontecer do homem ditar regras para as mulheres e nem as mulheres ditar regras para os homens, de qual roupa vestir, com quem falar. Quando a autodeterminação está comprometida, tem algo errado. Precisa de uma inserção. Quando isso acontece, as pessoas percebem que a mulher muda o comportamento. Ela se isola, não fica no meio das pessoas. Por isso que a gente trabalha nessas campanhas educativa também. Porque muitas vezes essas práticas começam a existir no primeiro relacionamento. Por isso levamos esses debates para as escolas para fazer o jovem pensar nesse comportamento. Porque só com mudança social é que vamos mudar de fato. O enfrentamento com repressão não é suficiente, e assim vamos continuar vendo as estatísticas aumentando da mesma forma. Temos que tocar nessas ação, de fazer o outro se sensibilizar com o sofrimento alheio. Temos que nos envolver. Essa denúncia vai o gatilho para essa mulher.

O agressor é pai do filho, ela nutre sentimento por ele, tem a relação familiar, tem a situação da dependência financeira em alguns casos, o medo também

PORTAL DOUGLAS CORDEIRO - Outra questão é sobre inquéritos policias. A delegada Eugênia Villa falou sobre um mutirão para ser revisados os inquéritos no interior do Piauí sobre assassinatos de mulheres. Segundo a delegada, a conclusão de alguns inquéritos podem ser revistas. Esse número pode até ser maior se houver um mutirão. É possível o aumento no número de mulheres vítimas de feminicídio?

DELEGADA ANAMELKA CADENA - Eu não conheço ainda essa dinâmica do mutirão proposto, a gente não está avaliando o que pode acontecer com procedimento que volte até as unidades para uma diligência que possa ser solicitada pelo Ministério Público. Se isso estiver acontecendo, a gente pode fazer uma imersão nos casos solicitados a essa nova diligência para avaliar o que esteja solicitado. depois que o documento é encaminhado para a justiça, só por interesse do Ministério`Público, que é dono da ação, pode ser voltado o procedimento para uma reavaliação. Mas por natureza da investigação, um fato apontado preliminar, não vai ser aquele que vai finalizar o inquérito ou a ação penal. Toda aquela investigação, o norte da identificação, de definição da modulação jurídica que vai ser objeto de sentença pode ser alterado sim, é natural. Se acontecer, muda a a estatística. Mas não quer dizer que vai acontecer, mas existe a possibilidade. E mudando a modulação, pode mudar a estatística.

PORTAL DOUGLAS CORDEIRO - De uma certa forma, apesar de todo o aparato criado para a mulher, desde a entrada dela no sistema até a saída, a mulher de um lado ainda se sente coagida a denunciar? De outro lado, nós temos o caso da mulher que fantasia que aquelas ameaças vão parar? E também tem a mulher que não denunciar por dependência financeira pelo marido?

DELEGADA ANAMELKA CADENA - Na realidade a gente pode pensar numa infinidade. O agressor é pai do filho, ela nutre sentimento por ele, tem a relação familiar, tem a situação da dependência financeira em alguns casos, o medo também. Quando a gente fala que o feminicídio é um crime evitável, a mulher denunciando, vamos evitar muito isso. Por isso os canais de denúncias são gatilhos. Esse start que é difícil. Por isso batemos muito nessa tecla. A gente trabalha muito com centro de referência. A mulher tem que ser encorajada. Temos que focar nisso. Acompanhamento dela constante vai se rum divisor de águas para uma assistência maior.

Agradecimentos ao Portal GP1 por ter cedido as fotos

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