O legado da revolução 100 anos depois!

Para o historiador inglês Eric Hobsbawm, a Revolução Russa significou para o século XX o que a Revolução Francesa representou para o século XIX

Por Dalton Macambira
01/12/2017, às 10:31 - Atualizado em 11/12/2017, às 00:42

Para o historiador inglês Eric Hobsbawm, a Revolução Russa significou para o século XX o que a Revolução Francesa representou para o século XIX.

Poderemos começar destacando as conquistas sociais dos últimos 100 anos, cuja principal expressão foi o advento do Estado de bem-estar social, principalmente no ocidente europeu, mas não somente. O advento do Estado previdenciário, e a adoção de políticas sociais compensatórias, não teria sido possível se o mundo capitalista não estivesse pressionado pelos enormes avanços nos direitos sociais e trabalhistas obtidos pelo proletariado no mundo socialista, a partir de 1917. O clima extremamente quente da “Guerra Fria” e a tentativa de evitar o avanço do socialismo, sobretudo após o fim da Segunda Guerra Mundial, praticamente obrigou os países capitalistas a assegurarem condições de vida mais dignas para os trabalhadores.

Qualquer dúvida acerca dessa questão basta ver as condições miseráveis em que viviam os trabalhadores na Inglaterra e na França na virada do século XIX para o século XX. Existe farta literatura sobre essa realidade nua e crua. O keynesianismo e sua importante tese do Estado como indutor do desenvolvimento econômico e social, com o respectivo fracasso do liberalismo econômico frente à crise iniciada em 1929, não teria sido possível sem o aprendizado da experiência socialista.

O mundo também foi influenciado pelas transformações que ocorriam na União Soviética e que gestaram em diversos lugares processos de desenvolvimento nacional a partir de políticas de desconcentração da propriedade privada da terra, elevação da produtividade agrícola e industrial, com redução das desigualdades sociais e regionais. Talvez as experiências mais emblemáticas, nesse sentido, sejam os casos do Japão e da Coréia do Sul.

Todo o processo de descolonização na África e na Ásia e da autodeterminação de seus povos, após 1945, está diretamente relacionado aos desdobramentos dos acontecimentos de 1917 e a posterior formação do bloco socialista. O mundo foi moldado pelo colonialismo imperialista e inteiramente desmontado, em larga medida, pelo apoio da União Soviética às lutas anticoloniais e de libertação nacional que conformaram um novo sistema internacional. As revoluções socialistas vitoriosas na China, em Cuba, na Coréia do Norte e no Vietnã foram fruto desse período.

A mídia ocidental sempre faz uma grande festa para comemorar o fim da Segunda Guerra tomando como marco decisivo o desembarque das tropas anglo-americanas na Normandia. Falácia! Sem a força e a determinação do Exército Vermelho Soviético o nazi-fascismo não teria sido derrotado. Não foi sem razão que o maior número de mortos nesse conflito bélico pertence à União Soviética, cerca de 20 milhões, entre civis e militares. No entanto, quase 80% das baixas das tropas do Eixo (nazi-fascismo) foram causadas pelos soldados soviéticos.

Revolução Russa

No campo científico e tecnológico o mundo deve muito à experiência socialista. Apenas para citar alguns poucos exemplos: as primeiras experiências aeroespaciais, inclusive tripuladas, fruto dos investimentos no programa espacial soviético, obrigaram os EUA a investirem maciçamente nessa área, particularmente após o lançamento do Sputnik, o que culminou com a criação da NASA. Provavelmente, sem o avanço científico e tecnológico da URSS, os EUA não teriam enviado o homem à Lua no final dos anos de 1960. O desenvolvimento socialista no campo científico, sobretudo no processo da Guerra Fria e da corrida armamentista, também conduziu a quebra do monopólio norte-americano em relação à bomba atômica e a tecnologia nuclear.

Outro legado importante da revolução de outubro, muito pouco comentado, foi o enfrentamento e a superação de três grandes discriminações. A primeira delas foi à superação da desigualdade de gênero, pois as mulheres tiveram acesso ao mercado de trabalho e aos mesmos direitos que os homens na Rússia logo após 1917. A segunda diz respeito à conquista do direito de voto universal, inclusive entre homens e mulheres. A terceira foi a superação da discriminação racial, claramente perceptível na derrota imposta ao nazismo pelo exército vermelho, no caso dos judeus, e nas lutas de libertação nacional, sobretudo na África negra. Esse horizonte civilizatório, que não existia no mundo capitalista, foi sendo conquistado pela luta dos trabalhadores que, influenciados pelos ideais socialistas, obrigaram o estado burguês a adotar determinadas decisões que visavam por um fim à discriminação sexual e racial e do direito de voto.

Entretanto, apesar de todos esses avanços e conquistas, o paradigma soviético deu resultados positivos enquanto o desafio foi superar o atraso, herdado do império russo, mas posteriormente se revelou insustentável, não dando continuidade aos crescentes ganhos de produtividade. Acorrida armamentista, fruto da Guerra Fria, sufocou a economia soviética, desviou recursos de setores essenciais da economia, sobretudo nas áreas sociais e na produção de bens de consumo popular, pois optou pela indústria de bens de capital, e levou ao colapso do início dos anos de 1990.

A crise geral do socialismo, após setenta anos da construção de uma experiência absolutamente única, permitiu o surgimento da tese, pouco original, do “fim da história”, produto daquele momento em que se proclamava ao mundo a pretensa vitória da economia de mercado e da burguesia.

A resposta àqueles que se iludem pensando ser possível paralisar a história e a luta de classes veio na onda do fracasso neoliberal, quando nos primeiros anos após a “a queda do muro”, Hobsbawm afirmava que poucas profecias teriam vida mais curta que esta do “fim da história”.

O capitalismo vive a mais uma de suas permanentes crises. Embora tenha conseguido sobreviver, buscando novas formas de acumulação e aparentemente superar mais uma crise cíclica, ainda em curso, não foi capaz, como não poderia ser diferente, de apresentar saídas para os problemas fundamentais da humanidade. Em sua fase atual, oligopólica e financeira, mas, sobretudo imperialista, o desenvolvimento das forças produtivas exige cada vez mais das empresas investimentos em tecnologia que garanta o aumento da produtividade do trabalho e a elevação da “qualidade” dos produtos, bem como o barateamento dos custos de produção.

Essa faceta da nova ordem mundial, produto da revolução técnico-científica, impõe um processo de reestruturação produtiva do capital, através da adoção de novas formas de gestão e organização do trabalho, que utiliza cada vez mais tecnologias poupadoras de força de trabalho, produzindo o chamado desemprego estrutural, bem como uma agenda neoliberal para retirar do Estado instrumentos reguladores das relações entre capital e trabalho, visando enfrentar a redução tendencial da taxa média de lucros, conforme previra Marx.

O crescimento do capital financeiro especulativo, combinado com a elevação da produtividade, em função do incremento tecnológico, reduz postos de trabalho e o mercado consumidor, com a extinção de direitos sociais, provoca uma crise global que somente encontra paralelo na grande depressão dos anos de 1930.

Nesse sentido, enquanto existirem essas contradições, isto é, produção social e apropriação privada da riqueza, próprias do capitalismo, “um espectro” continuará rondando o mundo. Por esta razão, a utopia socialista, renovada, estará sempre à espreita para ressurgir com mais força e vitalidade para o bem da humanidade.

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(*) Dalton Melo Macambira é professor do Departamento de História da Universidade Federal do Piauí – UFPI e doutorando em Desenvolvimento e Meio Ambiente pelo PRODEMA/UFPI ([email protected]). CV: http://lattes.cnpq.br/1103145216766050

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