Flávio Nogueira: Reconciliar? Não há diálogo com Luppi e Ciro

Nesta entrevista exclusiva, Flávio Nogueira faz um desabafo. Explica que esta pode ser uma estratégia de Carlos Luppi e Ciro Gomes visando as eleições 2022

Por Wesslley Sales
20/07/2019, às 13:09 - Atualizado em 20/07/2019, às 15:36

Com 20 anos de militância em um mesmo partido, o deputado Federal Flávio Nogueira vive um momento inédito e vexatório no PDT. Ele, que é Presidente da sigla no Piauí, além de outros sete parlamentares estão suspensos e podem até ser expulsos por não seguir a orientação da Executiva Nacional em votar contra a Reforma da Previdência.

Nesta entrevista exclusiva, Flávio Nogueira faz um desabafo. Explica que esta pode ser uma estratégia de Carlos Luppi e Ciro Gomes visando as eleições 2022 e reafirma que continuará votando com sua consciência. O parlamentar diz ainda que já foi procurado por vários partidos oferecendo legenda, caso deixe o PDT.

PORTAL DOUGLAS CORDEIRO - Primeira votação da reforma da previdência o Senhor votou para ser retirada de pauta e em seguida foi favorável ao texto. Não é incoerência?

FLÁVIO NOGUEIRA - Retira-se de pauta para fazer um novo estudo, uma nova avaliação do texto. Porque alguns deputados diziam que não houve tempo, então vamos dar chance a quem possa fazer nova avaliação. Diziam que em uma semana vamos estar revisando isso aí. Embora, eu sabia que era manobra da oposição para protelar e fazer obstáculos para o que está errado não ser aprovado. Foi neste sentido, mas não retirar de pauta para não ser votado.

PDC – O Senhor não seguiu orientação do partido e votou a favor. Agora oito parlamentares foram suspensos. Como está lidando com isso, sendo Presidente da executiva estadual?

Eu sou contra fechar questão em matéria tão ampla como esta sem nenhuma discussão prévia. Estou em casa e vi a notícia nos jornais dizendo que o PDT iria expulsar quem votasse a favor. Isso atinge a dignidade de um deputado. Ninguém discutiu, a bancada não foi ouvida e antecipadamente já manda uma regra de exceção, um cerceamento do mandato de um deputado de acordo com sua consciência. Foi isso que feriu os 19 deputados do PDT e até do PSB, que fecharam questão. Sequer houve reunião da bancada. Teve uma Convenção desqualificada para o assunto, porque os convencionais nunca estudaram a matéria. Se fizesse um questionário de 10 perguntas nenhum saberia responder sobre a previdência e então, como querem decidir sobre deputado votar a favor ou não? Então, o que nós parlamentares decidimos foi, obedecendo a Convenção, não ser favorável ao texto enviado pelo Governo. Só vamos votar se tirar o BPC, trabalhador rural, capitalização, professores e isso foi modificado.

PDC - Após a decisão do PDT em orientar os deputados, foi comunicado isso ao partido?

Sim, inclusive fomos lá e pedimos para revogar a decisão, convocar a executiva porque é outro texto, mas a resposta foi não. Querer mostrar que tem poder sobre os deputados. Mas, isso fere a dignidade.

PDC - Então, é dizer que o partido manda nos deputados, não observar os projetos em pauta e observar uma possível candidatura Ciro Gomes nas próximas eleições?

Tem isso também. Disse isso, é tática. Selar o que foi combinado com outros partidos, uma conjuntura daqui para frente, em 2022. Isso não tem cabimento porque quem vai votar somos nós. Temos todo um corpo técnico nos dando assessoria, consultamos, lemos. Porque uma matéria dessa leva cinco meses tramitando na câmara? Avaliando, estudando, ouvindo opiniões técnicas, colocando emendas. O que meu partido fez foi: isso aqui não presta. Não estudou.

PDC - O que o Senhor Espera agora do que pode vir depois da suspensão?

Não sei, mas estou tranquilo esperando a decisão. Até agora não fui comunicado. O partido comunica as coisas pela imprensa. Esse processo que deveria ser discussão interna vocês já sabiam qual era o resultado. Então, para que reunir? Bota o carimbo suspenso e pronto.

Deputado Federal Flávio Nogueira / Foto: GP1

PDC - Como funciona efetivamente essa suspensão?

É uma suspensão partidária. Não é da atividade parlamentar porque não tem poder para isso. O mandado é do povo. É você não poder usar a sigla do partido. Eu faço parte da comissão de relações exteriores de tributação e finanças e posso ser mudado porque a indicação é do líder do partido. No julgamento do Cunha mudava muito. Eu acho que sim, devo sair. Tudo que é possível de punição para esses oito deputados eles vão fazer.

PDC - Pode acabar em expulsão?

Rapaz. Pelo movimento que está aí não tem mais volta para isso. Até porque não há mais ambiente. Como vamos nos reconciliar? Então é difícil isso porque há muita intransigência da direção nacional. Esse é o problema. Um partido tem que parlamentar, conversar muito. Uma decisão para ser tomada deve ser exaustivamente debatida em várias reuniões para convergir.

PDC - Intransigência de Carlos Luppi ou Ciro Gomes?

Da direção nacional do partido, porque os dois fazem parte. Vem de cima para baixo, não há um consenso. Uma bancada de 28, que na verdade agora são 27 porque o deputado Mauro Filho, que é do Ceará e que ficaria com a gente, foi lá para ser secretário de estado por três meses para não votar. Oito deputados correspondem a um terço da bancada. Éramos 11, mas esses três do Ceará, o Dr. Ciro tirou da nossa rebeldia porque ficava chato para ele no Ceará ter esses três deputados votando supostamente contra ele, mas que na verdade não é contra ninguém.

DC - Se o partido chamar esses “rebeldes” para conversar, passar uma borracha e exigir que sigam as orientações daqui para frente?

Mudar meu comportamento eu não vou. Ordem para eu votar sobre isso não vou atender e nenhum deputado deve atender. Tem o programa do partido? Tem. Então, vamos debater se a matéria atinge o postulado do partido, se vai contra a doutrina do partido. Tudo isso tem que ser discutido antes. Se falarem com os oito deputados sobre seguir orientações no segundo turno isso é denegrir. Não tem sentido. Não votei contra o partido. Votei de acordo com minha consciência, com estudos. Aliás, muitos votaram pelo partido e não pela reforma e nem pelo Brasil, como muitos me disseram. Isso não é grave? Cada um votou com sua consciência, tá certo. Mas, se votou por medo, então não votou com sua consciência.

PDC – O Senhor é Presidente da executiva estadual do PDT a 20 anos. Seu filho é deputado estadual. O Senhor já tem convites, caso deixe o partido?

Sei apreciar a arte de esperar. Não tenho pressa de maneira alguma. A gente vive em Brasília semanalmente. Não apenas o PP, mas vários presidentes nacionais de partidos, com o PSDB, procuraram a mim e aos outros sete deputados. É isso que as vezes fico triste. O Piauí é testemunha do quanto zelei por este partido, sozinho. Porque não é fácil se formar um partido. O candidato Ciro Gomes, por exemplo. Quantas vezes fui à mídia para explicar o que ele dizia porque a turma dizia que ele era muito afobado? Eu elogiava, falava que tinha um temperamento, mas que era excelente gestor. Qual partido não quer um Deputado Federal? Para um partido o Deputado Federal é mais importante que um Senador. O tempo de televisão é pelo número de Deputados Federais, o fundo partidário é pelo número de votos dos Deputados Federais. Todas as reformas passam primeiro pela Câmara e o Senado não costuma derrubar o que foi aprovado. Se modificado no Senado, então volta para a Câmara. Os outros partidos têm uma preocupação imensa com seus federais. No nosso coloca a bancada em segundo plano. Parece coisa deliberada. Um parlamentar chegou a dizer que não pode dar muito empoderamento à bancada. Mas, é quem tem poder mesmo de tomar decisões.

PDC - É inevitável sua saída sua do PDT?

Não sei. Não fui notificado ainda. Ouvi as declarações do presidente Carlos Luppi, mas só falarei depois de oficialmente notificado. Estou esperando esta notificação. Mas, ninguém vai modificar nossa maneira de ver a posição do deputado tem que ter nas votações. Se o partido quer prevalecer seu programa, vamos discutir.

PDC - Temos um presidente de fato, Jair Bolsonaro, mas quem está à frente das negociações com os parlamentares é Rodrigo Maia. Então, este é o nome mais importante do país?

Sim, porque a muito tempo a Câmara estava devendo isso a população. Houve uma propaganda muito grande de negação aos políticos e a política. A Câmara compactuou com isso pelas condutas não muito republicanas conduzidas por seus ex-presidentes. Agora, é diferente. Temos um presidente corajoso, determinado, cumpre as pautas e tem enorme responsabilidade com o Brasil. Quando havia problemas do Governo, crises entre o STF e o Governo, foi quem tomou a frente, conduzia e está conduzindo bem seu papel como presidente da Câmara. Ah, o Presidente da República foi eleito pelo povo. Nós também. Às vezes parece que esquecem disso.

PDC - Estamos às vésperas de uma eleição municipal. Como o Senhor está projetando a disputa com essa situação no PDT?

Tenho 20 anos de política e tenho meus seguidores. Onde eu ficar, eles ficam. Onde eu for, eles vão. Tem que ter a arte de esperar, embora eu ache que essa movimentação toda prejudique a imagem do partido. A deputado Thábata subiu 30 pontos. Pensavam que iriam derrubar e ela cresceu. Não estou achando bom. Pode até ser que ela, nova no partido, veja diferente. Mas, eu queria que fosse na maior normalidade possível e divulgando nosso partido. Acho que ficamos vulneráveis. Precisa pulso forte e liderança boa para soerguer o PDT.

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