Partidos políticos: afinal, por que não nos sentimos representados?

Juntamente com o crescimento do número de legendas partidárias, aumenta o tamanho da insatisfação popular com os partidos políticos

Por Redação
14/01/2018, às 13:00 - Atualizado em 15/01/2018, às 00:42

Já vimos em outro texto que os partidos são uma importante forma de se representar democraticamente o cidadão. Desde o fim da década de setenta, quando o país começou a vivenciar a transição do regime militar para o democrático, os partidos políticos têm ganhado espaço cada vez maior no sistema político brasileiro. Tendo teoricamente a função de representar e canalizar as demandas sociais, eles são indispensáveis ao sistema representativo.

Passados mais de trinta anos desde os primeiros movimentos da transição, o Brasil acaba de ganhar seu trigésimo terceiro partido político, o Partido Novo, e outros tantos aguardam o aval do Tribunal Superior Eleitoral para funcionarem. Por outro lado, juntamente com o crescimento do número de legendas partidárias, aumenta o tamanho da insatisfação popular com os partidos políticos.

Mas, afinal, quais seriam as razões de tanta insatisfação dos representados para com seus representantes? Inúmeros fatores podem responder a essa pergunta. Vamos ver alguns desses fatores a seguir.

1) O PATRIMONIALISMO

Hoje em dia ainda existe uma forte influência do patrimonialismo nas relações político-sociais brasileiras. Mas o que seria esse tal de patrimonialismo? Para Bendi que foi um sociólogo americano, o patrimonialismo ocorre quando o governante utiliza a máquina pública para satisfazer interesses particulares, personalíssimos. Já Sérgio Buarque de Holanda, historiador brasileiro, afirma que o patrimonialismo no Brasil é um traço herdado de sua colonização, e define membros da elite política brasileira como funcionários patrimoniais cuja gestão é pautada por seus interesses particulares.

2) DISTÂNCIA ENTRE ELEITOS E ELEITORES

Ao longo da história política brasileira, principalmente após o período militar, verificou-se um aumento significativo do número de partidos no universo político, cujas intenções iniciais eram a de canalizar e representar as demandas sociais. No entanto, o atual modelo representativo faz com que o cidadão, titular do poder, disponha de  pouca ou nenhuma força  – vide as intensas manifestações ocorridas em 2013/14, que resultaram em uma reforma política totalmente diferente das pautas populares. Nesse sentido, Sartori sugere que um dos maiores problemas vividos no universo político representativo consiste na defasagem existente entre a população e as elites no poder.

Congresso Nacional

3) PERDA DE IDENTIDADE DOS PARTIDOS

Outro fato gerador da crise dos partidos políticos pode ser encontrado na constante perda de identidade dos partidos. A ideologia política passou a ser cada vez menos importante, podendo esse movimento ser atribuído a chegada dos partidos às emissoras de tevê. Para o cientista político Bernad Manin, em tempos passados, os partidos apresentavam aos eleitores programas de governo, projetos bem estruturados e se comprometiam a cumprir com as promessas. Nos dias atuais, porém, a preocupação maior gira em torno da construção de uma imagem que possa projetar a personalidade dos líderes.

4) A CORRUPÇÃO

Cabe destacar ainda a corrupção como fator de distanciamento e descrédito da população para com os partidos políticos. Com o recente empoderamento das instituições de controle (Polícia Federal, Ministério Público, Controladorias e outras), e com a produção de leis que visam tornar a gestão de recursos e de políticas públicas mais transparentes, tem trazido à tona volumosos casos de desvio de dinheiro público – em boa medida para a produção e manutenção de um projeto de poder.

Nesse sentido, a atual crise no sistema representativo pode ser entendida se compreendermos que os interesses sociais têm deixado de fazer parte das estratégias políticas dos partidos. Os partidos atuais reforçam a sensação de distanciamento entre representantes e representados, a perda cada vez maior de um projeto de governo específico e do senso de ideologia, tornando a personificação dos candidatos mais relevante do que a representação dos interesses dos representados.

FONTES:

BENDIX, Reinhard. Max Weber: um perfil intelectual. Trad. Elisabeth Hanna e José Viegas Filho. Brasília: Unb, 1986;

BUARQUE DE HOLANDA, Sergio. Raízes do Brasil. 26º. ed. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1995;

SARTORI, Giovanni. Eleições e Partidos: Os Partidos. In: Robert Darnton & Oliver Duhamel, (Orgs). Democracia. Rio de Janeiro. Editora Record. 2001. Pg. 181;

SILVEIRA, Daniel Barile da. PATRIMONIALISMO E A FORMAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO: UMA RELEITURA DO PENSAMENTO DE SERGIO BUARQUE DE HOLANDA, RAYMUNDO FAORO E OLIVEIRA VIANNA. Disponível em: 

http://www.conpedi.org.br/manaus/arquivos/anais/Daniel%20Barile%20da%20Silveira.pdf. 

Conteúdo do portal Politize! escrito por Bruno Blume.

nossas redes sociais